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Mário Carvalho Ribeiro Alves

Menção Honrosa Prémios Pepe Camara - Escrita

Viajar com propósito 

Viajar será sempre um desafio repleto de incertezas, inseguranças e desconhecimentos, onde o Homem enfrenta o intranquilo sentimento de não poder dominar por completo o que o rodeia, mas que o impele a ir sempre mais além, porque o seu instinto nómada e aventureiro fá-lo desafiar o sedentarismo, que agora o caracteriza, desbravando o espaço entre si e o horizonte, com a certeza de que este nunca será alcançado, mas sempre na ilusão de o atingir. Esta será a razão pela qual, e mesmo que apenas através da imaginação, o Homem sempre foi, é e será um eterno viajante. 

Num primeiro impulso, a palavra “viajar” transporta-nos para longe de casa. Associamo-la ao conforto do avião, do barco, do hotel, do resort, da praia, da montanha…; ao conhecimento de outros relevos, onde habitam povos com diferentes culturas, etc… 

Deste modo, viajar com propósito será sempre com um objetivo definido e alicerçado na segurança de um projeto que nos valorizará pessoalmente. 

Mas é também em percursos à volta do nosso aconchego que, da mesma forma, nos podemos realizar como exploradores do desconhecido, mesmo sem propósito. Senão vejamos: 

Ao desembrulhar a manhã que a madrugada, já moribunda, deixou ancorada no meu despertar, encontrei entre os raios de sol, que timidamente se insinuavam ao meu dia, uma vontade vagabunda de partir sem rumo certo, sem o conceito do longe ou do perto, deixando o conforto do que não me traz empecilhos (na mesma medida que não me proporciona renovadas sensações), para encontrar o prazer de viver no inesperado e na falta de comodidade do que não conheço. 

Esta vontade vagabunda que me assola constantemente, impeliu-me, nesta manhã ainda gotejada do orvalho que o breu lhe deixou, a partir em busca do melhor que o mundo tem: a sua geografia e as gentes que dela fazem parte. 

Além de outras necessidades, recheei a mochila com um pedaço de ousadia, outro de coragem e um pouco de sensatez, que isto de trilhar o desconhecido tem o seu risco (que o diga Pepe Camara), mesmo que a viajem seja preparada ao detalhe, com propósito. 

Parti, qual intrépido aventureiro, sem temer a distância que me separava do final. Sabia de outras demandas que o seu conteúdo me faria desejar que o tempo, sugador de segundos e minutos (que tanta falta nos fazem nas horas de prazer e bem-estar), não o fosse durante este contacto com o mundo fascinante que me rodeava, até porque… não tinha pressa de chegar. 

E como o início do mundo é onde cada um de nós se encontra, lá fui mundo fora. Um mundo que julgamos conhecer, mas que, na realidade, nos é tão desconhecido, quão belo e apaixonante, quão inesperado e imponente, quão agreste e prazenteiro, quão… só mesmo indo se poderá saber o quanto se perderia se não se fosse. 

À medida que os meus passos iam afagando o chão, transmitindo ao corpo a tranquilidade necessária para se sentir capaz de atravessar tamanho palco natural onde, permanentemente, decorre um verdadeiro bailado, todo ele coreografado com formas desenhadas pelo tempo e pintadas pela chuva, pelo sol e pelo vento, o meu olhar extasiava-se, incrédulo, com tudo o que à minha volta se apresentava, qual quadro fundamental na decoração do paraíso. 

Deambulando por caminhos e lugares tão próximos geograficamente, mas longínquos na nossa vontade de os conhecer, avistam-se paisagens tão incrivelmente belas e melodiosas, surgindo-nos tão repentinamente que nos emudecem e nos sugam o olhar; erguem-se imponentes afloramentos rochosos que nos aumentam ainda mais a insignificância, perante tamanha grandiosidade desinteressadamente oferecida pela Natureza; afundam- se imprevisíveis e impiedosos precipícios que quase nos engolem no seu vazio; surgem, por vezes, impeditivos obstáculos que nos escondem locais dignos de Adão e Eva. Transpô-los será um risco, mas também uma premente necessidade; chamam-nos, murmurando, ruínas que nos contam histórias de um passado sofrido, cuja viagem até ao presente lhes trouxe a decadência, visível nas cicatrizes que levarão para o futuro; salpicam-nos frescas e apressadas ribeiras que, lambendo as margens onde se protegem, vão revigorando o que, em seu redor, à vida se insinua. 

E assim, depois desta viagem, sem propósito, a caminhar num desconhecido ávido e sedento de se dar a desvendar, me rendo à beleza deste mundo, onde existe o que não pensava existir; onde encontro o “Belo” que julgava só encontrar noutros lugares, promovidos por filmes ou anúncios publicitários, anunciando este ou aquele paraíso; onde a vontade de ficar supera a de partir, mas partindo, permanece uma impaciente vontade de regressar; onde, afinal, a minha ânsia devoradora de tratar por tu o que não conheço, pode ser saciada onde menos o esperava: aqui, nos percursos à volta de casa, que a minha condição de intrépido aventureiro me proporciona. 

É neste sentido que viajar se torna uma oportunidade para desvendar quem somos e de onde viemos. Para conhecer as gentes e as terras, os cantos e recantos de um mundo recheado de beleza para, perdendo-nos no (des)conforto do desconhecido, encontrarmo-nos nas memórias históricas e culturais de um qualquer povo e, esquecendo-nos nos cheiros e sabores da nossa ancestralidade, nos redescobrirmos num mundo ao nosso alcance que nos suplica a presença.

Viajar sem propósito já é em si um propósito, por isso…partamos. Partamos e levemos na mochila, além do essencial, a certeza de que viajar é, sobretudo, ir ao encontro dos nossos limites, sabendo que, ao alcançá-los, outros se apresentarão para serem atingidos. 

Mário Compropósito 

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